Brasil terá fábrica de curativos feitos com pele de tilápia com investimento de R$ 52 milhões

Unidade será construída no Ceará com investimento de R$ 52 milhões e poderá produzir até 12 mil peles por dia para uso em tratamentos de queimaduras e feridas.
O Brasil está prestes a ganhar uma fábrica dedicada à produção em larga escala de curativos biológicos feitos com pele de tilápia. O empreendimento ficará em Jaguaribara, no Vale do Jaguaribe, no Ceará, e receberá investimento inicial de R$ 52 milhões.
A tecnologia nasceu de pesquisas da Universidade Federal do Ceará (UFC) e agora começa uma nova etapa: a produção industrial.
A iniciativa utiliza a pele da tilápia, que normalmente seria descartada pela indústria de pescado, para fabricar um material destinado ao tratamento de queimaduras e feridas de difícil cicatrização.
O projeto reúne o Consórcio Biotec e a Inova Medical e pretende ampliar o acesso à tecnologia no Brasil. Além disso, a empresa planeja atender o mercado internacional no futuro.
Da pesquisa ao hospital
A tecnologia começou a ser desenvolvida dentro da UFC. Pesquisadores estudaram as características da pele da tilápia e desenvolveram uma técnica que permite transformá-la em um curativo biológico.
Atualmente, o Laboratório de Pesquisa da Pele de Tilápia, ligado ao Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da UFC, consegue processar cerca de 600 peles por mês.
Com a nova fábrica, entretanto, essa capacidade vai aumentar significativamente. A unidade deverá processar 4,3 mil peles por dia no primeiro ano de operação comercial. Depois, uma segunda etapa poderá elevar a produção para até 12 mil unidades diárias.
Como a pele de tilápia ajuda no tratamento?
O material funciona como um curativo biológico e pode ser utilizado principalmente em queimaduras de segundo e terceiro graus.
Quando aplicado sobre a área lesionada, o curativo permanece em contato com a pele e pode reduzir a necessidade de trocas frequentes. Consequentemente, o paciente pode passar por menos procedimentos dolorosos durante o tratamento.
Além disso, estudos realizados com pacientes apontaram benefícios como aceleração da cicatrização, redução de infecções e diminuição da dor. Pesquisadores da UFC também estudam os mecanismos que podem explicar esse efeito.
Segundo dados apresentados pelo projeto, a tecnologia pode reduzir em até 52% os custos totais do tratamento de queimaduras. A redução ocorre, principalmente, pela menor necessidade de trocas de curativos, medicamentos e procedimentos hospitalares.
Pele que seria descartada ganha nova função
A fábrica também cria uma nova utilidade para um material que normalmente teria pouco valor.
Isso porque a pele retirada durante o processamento da tilápia costuma seguir para atividades de baixo valor agregado ou ser descartada. Agora, o material poderá entrar em uma cadeia de produção voltada à área da saúde.
A proximidade com o Açude Castanhão também pesou na escolha de Jaguaribara. A região concentra produtores de tilápia que poderão fornecer a matéria-prima para a fábrica.
Dessa maneira, o projeto aproxima a produção de pescado, a pesquisa científica e a indústria farmacêutica.
Nova tecnologia dispensa refrigeração
Outro diferencial está na conservação do curativo.
A fábrica utilizará a liofilização, uma técnica que retira a água do material e facilita sua conservação. Além disso, o processo permitirá armazenar o produto em temperatura ambiente, sem a necessidade de transporte refrigerado.
Segundo os responsáveis pelo projeto, o curativo poderá ter validade de até três anos.
Na hora da aplicação, o profissional de saúde precisará apenas reidratar o material com solução fisiológica. Assim, o produto poderá chegar com mais facilidade a locais que não contam com uma estrutura de refrigeração adequada.
Antes da comercialização, porém, a fábrica ainda precisará cumprir as exigências regulatórias da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Fábrica deve gerar empregos
Além do impacto na área da saúde, o empreendimento também deverá movimentar a economia de Jaguaribara.
A projeção inicial aponta para a criação de empregos diretos na região. O projeto prevê ainda capacitação técnica de profissionais, com participação da UFC e de instituições parceiras.
Ao mesmo tempo, a chegada da indústria pode aumentar o valor econômico da cadeia produtiva da tilápia no Ceará.
Quando a fábrica começa a funcionar?
O cronograma prevê o avanço das obras e da implantação da unidade a partir de outubro de 2026. Depois disso, a empresa deverá concluir a construção, instalar os equipamentos e validar os primeiros lotes.
Se todas as etapas seguirem o planejamento, a operação poderá começar em janeiro de 2028. A previsão depende, entretanto, da conclusão dos processos regulatórios e da validação dos lotes junto à Anvisa.
Tecnologia brasileira pode chegar ao exterior
O projeto também mira o mercado internacional.
Além de atender parte da demanda brasileira, a empresa pretende levar os curativos para outros países. O objetivo é transformar uma pesquisa desenvolvida no Ceará em um produto de alcance internacional.
Assim, a pele de um peixe que antes tinha pouco valor pode ganhar uma nova função dentro da medicina.
Ao mesmo tempo, a iniciativa une ciência, indústria e reaproveitamento de resíduos para criar uma tecnologia brasileira voltada ao tratamento de pacientes com queimaduras.
Fonte: diariodolitoral.com.br – LRN

